quarta-feira, 16 de abril de 2014

HISTÓRIA

FOGO DE 40 E A VIAGEM DE CASCUDO AO ASSÚ

Em dezembro de 1840 houve uma disputa pela eleição para Vereadores e Juiz de Paz em Assú, que ficou conhecida como Fogo de 40. Constou de troca de tiros no adro da Igreja, quando tentaram impedir as eleições. Morreram, em consequência, o Juiz de Órfãos, Francisco Varela Barca (no altar de Nossa Senhora) e o irmão José Varela Barca (no patamar da Igreja de São João Batista). O governador Manoel d’Assis Mascarenhas acudiu com 200 homens, que permaneceram seis meses na Villa Nova da Princesa (atual Assú). Os irmãos Varela Barca estão sepultados na Matriz de São João Batista – Assú.

Vejamos a crônica de A República do dia 03/06/1934 escrita por Luis da Câmara Cascudo sobre sua passagem pelo município do Assú: 

Luís da Câmara Cascudo e Mário de Andrade no sertão, 1929.
"Viajando o Sertão (III)"
(Percurso – Santa Cruz – Cabeço Branco – Serro Corá – São Romão – Angicos – Assú)

"Assú dá-nos impressões várias. Aqui houve o ‘fogo de 40’, ali falavam os oradores na campanha da abolição que foi vitoriosa antes da lei de 13 de maio, além apruma-se o mais velho sobrado. As andorinhas passam, inúmeras, povoando o ar de sonoridade pelo frêmito do vôo rápido. A praça é deserta sob o palor das lâmpadas. Eu falo de integralismo, toponímia, algodão. (...)" 

"Pela manhã tivemos a linda festa do Colégio Nossa Senhora das Vitórias. A vitória maior é viver aquelas freiras ilustres, quase todas nórdicas, num clima ardente como do Assú. O colégio é uma maravilha de ordem, disciplina, rendimento educacional e beleza de espírito. Sente-se que ali se trabalha para receber no outro mundo paga maior." 

"Na saída sei que iremos para o Centro Artístico Operário Assuense. Mas o Ângelo Pessoa tem um operário para mostrar-me e atravesso os areais da cidade (...) onde, numa casa caindo de velha e negra de velhice, mora José Leão, sexagenário, ‘fazedor de santos’. 

Esse José Leão, como as andorinhas, são duas fortes impressões do Assú. É o tipo do imaginário primitivo, sereno, resignado, incompreendido, passando fome, trabalhando sem esperança, sem ambiente, sem auxílio, sem estímulo, insensível e obstinado, artista legítimo, com uma intuição de escultura, um senso decorativo, um tipo de moldar as fisionomias que lembra a rudeza elegante e máscula de Memling. José Leão mostra-me dezenas de santos, crucifixos, anjos, ovelhas místicas. Não tem instrumentos. São pedaços de canivetes (...), cacos de louça, pires bolorentos, quengas de coco (...). Longe de ter nossa mania de beleza dos Santos moldados em gesso e feito à maquina, iguais e bonitinhos, José Leão grava na imburana plástica rostos humanos, bem semelhantes ao tipo humano, possíveis e naturais. Ninguém compreende a maestria daquela intuição que lá fora o faria rico e aqui o mata de fome. Eu tive nas mão uma Nossa Senhora do Perpétuo do Socorro verdadeiramente maravilhosa. Um São José, um São João Batista, que estão sem preço, pedem uma página de elogio pela firmeza incrível com que aquele velho gravou os traços morais na árvore que lhes deu nascimento e vesti-os com uma precisão minuciosa e pictórica dum desenhista à Batps. 

O studio é fumacento e frio. Andrajoso e triste, com uma melancolia superior e espontânea, o imaginário recebeu-nos erguendo-se devagar duma rede sem cor. Na mão havia um livro. Não era o ‘Flos Santorum’. Era a ‘Retirada da Laguna’ E creio que o símbolo é fiel. Aqui esta ele fazendo sua retirada, sem roupa, sem pão, sem aliados, sem abrigo mas guardando todas as armas do trabalho, as forças da vontade e as bandeiras da fé. José Leão trabalhador sem reclame, saúdo-te em nome dos que trabalham com alma e morrem sem glória." 

Assina desta forma:
L. da C. C.

Fonte: Luis da Câmara Cascudo - Viajando o Sertão - 3ª Edição - Fundação José Augusto - CERN, 1984; por Mirella Farias. 

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