quarta-feira, 22 de agosto de 2018

CULTURA:


Oficializado em 1965 pelo Governo Federal após aprovação no Congresso Nacional, o Dia do Folclore, que tem seu registro nesta quarta-feira, 22 de agosto, será objeto de uma programação comemorativa na alçada do Cine Teatro Pedro Amorim. Transmite o diretor executivo do órgão, Marcos Henrique, que, em celebração à data, o espaço público estará apresentando, com acesso totalmente gratuito, um documentário sobre o Folclore Brasileiro. 
Dentro da mesma atividade será exibido um episódio sobre o Sítio do Picapau Amarelo, uma série de 23 volumes de fantasia, escrita pelo autor brasileiro Monteiro Lobato entre 1920 e 1947, evento que se dirigirá precisamente para estudantes de escolas da rede pública municipal de ensino. Marcos Henrique salienta que o cronograma alusivo ao Dia do Folclore nacional em Assú ocupará o interior do Cine Teatro durante os turnos matutino e vespertino. 
Imagens: Ilustração/⁠Ozair Lima.
Prefeitura Municipal do Assú
Secretaria de Comunicação e Ouvidoria
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terça-feira, 21 de agosto de 2018

NATAL:

O Memorial Câmara Cascudo abre suas portas para população, amanhá, 13 de agosto, às 16h, oportunidade em que também acontece a exposição do artista plástico Djalma Paixão, parte da programação do Agosto de Cascudo, que comemora 120 anos de nascimento do historiador. Atualmente o Memorial está recebendo as aulas da Escola de Dança do Teatro Alberto Maranhão (EDTAM), enquanto o prédio onde funciona a Escola também passa por restauração. 
Foram investidos R$ 288 mil em uma restauração completa que incluiu novas instalações hidráulicas e elétricas, novo revestimento, esquadrias e pintura do Memorial, que é administrado pela Fundação José Augusto. 
A reforma do prédio proporciona não só a conservação do legado do ilustre historiador, como também permite o acesso da população ao espaço cultural e histórico, contribuindo para perpetuar parte importante da história norte-rio-grandense aos nativos e também turistas que vierem visitar a cidade. Enquanto se prepara uma expografia permanente de Cascudo, o Estado programa exposições temporárias de diversos artistas dentro do horário de funcionamento do Memorial, de segunda a sexta, das 8h às 16h e no sábado das 8h às 13h. 
A reforma do Memorial surgiu da necessidade de modernizar alguns ambientes culturais para ampliação das ações ligadas à cultura e educação, possibilitando a manutenção de acervos e exposições, além da conservação e difusão das artes e da cultura popular, o que permitirá um salto de qualidade na oferta dos serviços culturais oferecidos à população do Rio Grande do Norte e principalmente na formação de novos profissionais do setor cultural do Estado. 
O público-alvo desta reforma é toda a população da cidade de Natal, os turistas e os estudantes da rede pública, que utilizarão esse espaço para melhorar a educação cultural e conhecer um pouco mais da história do Estado e de Luís da Câmara Cascudo. No caso dos estudantes será fornecido um espaço de qualidade como fonte de informações para aperfeiçoamento dos estudos e em relação aos visitantes será mostrada e explorada a riqueza cultural que o estado possui. 
A reabertura do Memorial também permite o acesso à população de menor poder aquisitivo a espaços culturais e de lazer público de qualidade, o Rio Grande do Norte vai reduzir os custos com locação de espaços para exibição de eventos culturais e aluguel de serviços públicos.
Postado por Ana Valquiria.

REMINISCÊNCIAS:

AÇU POR JOÃO CELSO NETO*
Perpétua de Babal (ou seria Babau, com u, que se escrevia o apelido de Aderbal seu pai?) trouxe suas memórias da terra natal. Outros também o fizeram como outros que ali moraram ou a adotaram para sempre.

De mim, Açu (assim consta de meu registro civil) esteve presente em esparsos poemas, um dos quais um soneto falando do “cadavérico caminho do cemitério de minha terra” onde, aos 18 anos, imaginei que para lá iriam me levar quando um dia enfim eu morresse (“Versos Íntimos”, 1966, p. 22).


Ainda naquelas incultas produções falei (p. 7) que queria gritar que ela era “- em todo o Universo – a terra do verso, da glosa, da quadra, soneto e poema, do vate maturo que ama e venera“.


Açu é para mim, sobretudo, o resultado das lembranças indeléveis dos meus primeiros 4 anos de vida, enquanto morava lá, e das férias que raramente deixaram de ser ali gozadas até quase 15 anos. Aos 4 e meio (junho de 1949), mudamos-nos para Natal e aos 15 (1960) para o Rio de Janeiro. Depois desta mudança para tão longe, passei duas férias em 1963, as de verão até depois do carnaval de 1964.


A cidade foi ainda ponto de passagem a que eu me obrigava de 1970 a 1971, tempo em que, morando em Recife, participei da implantação e aceitação do sistema de micro-ondas da Embratel (fabricante: GTE) entre Recife e Fortaleza. Havia uma estação repetidora logo depois da saída do Açu em direção a Mossoró, no Sítio Palheiros, bem à beira da estrada.


E voltei de passagem, voltando de Fortaleza por terra com a família. Além dessa oportunidade, passei uma semana lá em 1986, para as comemorações dos cem anos do nascimento de meu avô, e em 1999, para receber uma comenda que ressaltava minha atividade de Engenheiro Eletricista (na verdade, eu me formara em Eletrônica) quando eu já deixara a Engenharia e me tornara Advogado, seguindo a tradição da família.


O avô de quem herdei o nome foi um dos mais renomados Advogados (provisionado) de lá, dando hoje o nome ao Fórum. Meu tio e padrinho Expedito foi Adjunto de Promotor, ele também um provisionado com Banca no sobrado de Sebastião Cabral, em cima da bodega de Chico Celestino (pai de Alberto e de uma bruxinha que me enfeitiçou em certo carnaval lá se foram mais de 50 anos), quase vizinho à casa onde nasci (Praça Pedro Velho, 4) e tendo a casa de Renato Caldas entre uma e outro. Meu pai também se graduou em Direto, pela então Faculdade de Direito de Alagoas, em 1956. E outro tio meu, Emílio (irmão de mamãe, de Expedito e de Celso da Silveira), formou-se pela Faculdade Nacional de Direito - Rio de Janeiro – da mesma Universidade do Brasil onde concluí meu curso de Engenharia (faz alguns anos que o nome mudou para UFRJ). Minha filha caçula também tem inscrição na OAB.


Certamente, meu querido Açu mudou demais ao longo do tempo. Suas figuras populares na minha infância eram Manoel de Bobagem e Bonzinho, os craques do Centro Esportivo Açuense eram Edson de Assis, Zé Pretinho e Pirrão, além, lógico, dos poetas Renato e João Lins Caldas.


A rua mais badalada da cidade já era, com certeza, a Manoel Montenegro, onde ele próprio morava, acho que vizinho a Vemvem Tavares e pertinho do “Castelo” que fora de meu avô e onde, acredito, nasceram minha mãe e todos os meus tios. No outro quarteirão e do mesmo lado da calçada ficavam as casa de tio Lauro Leite, Eduardo Wanderley (avô de Perpétua) e, na esquina, a casa de Dr. Pedro Amorim. Também tio Zequinhas Pinheiro ali construiu sua casa, nos fundos do Banco do Brasil antes de ser transferido para a antiga casa de Manoel Soares, avô de meus primos Netinho, Frederico, Domicito, Lauritinha, Milton e Fátima. Deles, quantas recordações de nossa convivência no Camelo, a fazenda da família que foi desapropriada por conta do Açude Mendubim no final dos anos 60 (minha última ida foi em 1971, já então uma casa abandonada; ficamos hospedados na outra fazenda, o Limoeiro).


Claro que o que ficou mais marcado foi o pessoal da família: minha tia Maria Olímpia (irmã de papai) mais conhecida como Maroquinhas, suas tias Lília, Lindu, Nila, Elita e Idália, os tios maternos que já citei Expedito e Celso e aquele mundaréu de primos “legítimos” ou mais afastados, coisas de uma cidade pequena. Até os primos deles se tornavam íntimos, como os primos de Mara e dos filhos de tio Domício antes citados filhos de Clarice de Sá Leitão e Chico Soares, e daquelas tias paternas de meu pai Oswaldnho, Enóe e Nadja Amorim; Salete e Dedé Avelino; Socorro e Laurita Leite.


Ser do Açu era um fator que me aproximou pela vida a João Batista França, Conrado Tavares, Geovane Lopes, Ivanice Abreu e vários outros conterrâneos que só fui conhecer no Rio de Janeiro.


Sem falar nos filhos de tio Né Dantas (irmão de minha avó materna) que fui conhecendo (eram dezenas...) na fazenda (Chico e Procópio) ou fora de lá (Enedina, Maria Leocádia e Justina).


Açu, para mim, é bem mais que um retrato na parede! 

*João Celso Neto
Engenheiro e advogado.
Residente em Brasília.
Assuense, autor do livro Versos Íntimos.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

ARTISTA DAS LENTES:

JEAN LOPES PREMIADO NO CONCURSO FOTOGRÁFICO DA CANON
O fotógrafo assuense Jean Lopes acaba de vencer o Concurso Olhares Inspiradores Canon. Promovido pela Canon do Brasil o concurso foi desenvolvido para inspirar na captura de uma história em uma imagem e premiar talentos brasileiros na fotografia.
Esta etapa do concurso ocorrida de 02 de julho a 01 de agosto, teve 3.800 fotos concorrendo no tema cotidiano e o fotógrafo Jean Lopes venceu com um trabalho fotográfico feito em 2006 na comunidade rural de Pataxó, município de Ipanguaçu (RN). Vencedor de várias premiações nacionais e internacionais, essa é a quarta vez que a foto "Pataxó" é premiada. Com esse mesmo trabalho, Jean já tinha vencido o Concurso Leica-Fotografe 2006 - na ocasião, o concurso fotográfico mais disputado da América Latina; o Concurso Fotográfico Cidade de Santa Maria/RS de 2008 e obtido uma terceira colocação no Prêmio João Primo de Fotografia em 2007. 
Jean Lopes é fotografo há 25 anos e ao longo de sua carreira conquistou mais de sessenta prêmios no Brasil e no exterior, incluindo o Prêmio Petrobras de Jornalismo, o POY Latam -Pictures of the Year Latim America e o Latino-americano de Fotografia Documental. Suas fotos já foram expostas em São Paulo, Rio de Janeiro, Argentina, Áustria, México, dentre outros. Já ministrou também oficinas de fotografia em Recife, Natal, Mossoró e Assu.
Fonte: Alderi Dantas.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

REPOSTANDO:


Oh Vida! Os teus milagres nem sempre são doçuras, mas não me dês tanto! Não me dês tanto, tanto, tanta amargura. - Escreveu o pensador, o filósofo João Lins Caldas. 
 
No momento que esta universidade realiza o evento ‘III Letras em conferência’ quero dizer que a poesia Caldiana e a sua trajetória está contada pela professora Cássia de Fátima Matos dos Santos na sua tese de doutorado, porém ainda tem muito a se dizer sobre a vida e obra deste genial poeta norte-rio-grandense chamado João Lins Caldas a quem como insinua Vicente Serejo, “o Brasil deve um gesto merecido de consagração”. 
 
Tipo magro, baixa estatura, andar curto e ligeiro, voz mansa, afetuoso, porém tornava-se intempestivo quando alguém discordava das suas produções literatizarias e dos seus conceitos visionários. Certa vez, Caldas recebera em sua casa de morada certo amigo que encontrou o poeta declamando um poema de sua autoria, chorando de recitar a sua poesia, aquele amigo saiu-se com essa frase: “Caldas, eu não consegui decifrar o poema que você acabara de recitar!” – Solene e altivo, Caldas respondeu: - “Coboclinho (era uma forma generosa que ele tinha de tratar e chamar as pessoas). Eu estou declamando para os sábios como eu!” 
 
Caldas chega à fidalga cidade de Assu por volta de 1900, acompanhando seus pais João Lins Caldas e Josefa Leopoldina Lins Caldas. Seu pai era natural de Assu, e sua mãe nascera em Goianinha e carregava no seu nome os sobrenomes Torres Galvão do município de Goianinha, cidade onde também nascera o solitário e amargurado poeta que hora relembramos. 
 
Lembro-me dele, Seu Caldas, como ele era habitualmente chamado na cidade Assuense, eu era ainda adolescente, pelas ruas da cidade do Assu, terra que ele adotara como sua. Pena que era admirado por poucos e incompreendido por muitos. 
 
Lembro-me dele na sua modesta casa parede e meia, de porta e janela de duas lâminas da rua Ulisses Caldas, do Macapá, tradicional bairro de Centro da cidade de Assu, além das suas constantes visitas a casa do meu avô paterno com quem ele alimentava uma amizade desinteressada, sempre vestindo paletó e gravata com aquela simplicidade que lhe era peculiar, declamando seus versos, falando de política local, nacional, contando a sua vida fantástica, atribulada vivida no sudeste do Brasil.
 
Caldas produziu uma obra literária (ele tinha a sua própria forma de construção gramatical) multifária, extensa e bela, de invejar qualquer autor, de contextos diversificados com muita obsessão como pelo tema morte como podemos conferir nos seus escritos. 
 
Meus mortos vivos nunca apodreceram. - Diz num verso, o poeta de tantas amarguras. 
 
Romântico e apaixonado como sempre viveu, escreveu o esteta Caldas: 
 
Coração malsinado das torturas,
Coração de mulher sem amor ter,
Goza um pouco a ventura de querer
Que este gozo é maior que outras venturas. 
 
Tens, como as dores que hoje tens seguras,
Do amor a porta sem poder se erguer.
Ah! Que ventura se ilusões, das puras.
Hoje pudesse coração, conter! 
 
Mas não! Que o gelo que dá vida à morte
É o mesmo gelo que campeia forte
Nesse teu seio onde batalha a dor... 
 
És para o tédio e para o mal nascido...
Muda essa sorte, coração ferido,
Abra essa porta para o meu amor!...
 
Seus versos retrata a dor, a angústia, a solidão, o amor fracassado. Aliás, teria sido ele, penso eu, um dos poucos poetas brasileiros a escrever poemas com aspectos eróticos (umas das vertentenses da sua obra poética) no Brasil, alheios aos preconceitos da época, seguindo os moldes parnasianos, no começo da primeira metade do século XX como, por exemplo, o poema intitulado “De joelhos,” que o Almanaque Popular Baiano, de Salvador, publicou, para 1909, pág. 116, bem como o soneto sob o titulo ‘Em carne’, escrito em 31 de agosto de 1907, no lugar então denominado Povoação de Sacramento, atual cidade de Ipanguaçu/RN que evoco neste instante: 
 
Na areia brilhante nos dias de calma
Chegaste. A minha tentação. De joelhos
Me sinto a morder os lábios teus vermelhos...
Caio... E’ a febre... E tu morres e eu morro
Transfigurado a ti pedir socorro...
Vem... chega mais perto... o braço estende
Entre o teu, o meu corpo aperta e prende...
Flores à noite... a madrugada em flores...
E aqui meu coração e os teus ardores...
O silêncio vacila, a treva ordena.
Vamos!... a plateia é deserta... ao palco! Acena!
Afasta as rendas, do teu corpo afasta...
Esta roupa que odeio, esta camisa gasta...
Um trono a madrugada, a relva um ninho.
Deixa... eu aperto a tua mão no meu carinho...
Nua... a tua carne branca num arrepio
Me anuncia o calor a bendizer o frio...
(...)
Soo... a tua carne cansa e o coração a vida
Um beijo... mas outro... a tua carne em brasa...
E o meu instinto ao teu instinto casa...
(...) 
____________
 
Ai! Quando um dia eu te cingir, cativa
De meus afetos, desmaiada e nua,
Tu rolarás como uma chama viva
Quando eu morder-te a fina carne crua...
 
Tu’alma branca, que em ilusões flutua,
Que à amargura e ao desprazer se priva
- Gás dessa chama que o meu peito atua
Irá rolando loucamente, esquiva... 
 
E sobre a nave desse leito branco,
Bem enlaçados, num aperto franco,
Os nossos corpos rolarão, querida. 
 
Então verei do teu olhar fogoso:
A viva chama que alimenta o gozo,
A viva chama que alimenta a vida. 
 
E esse outro poema produzido nos moldes modernistas intitulado Volúpia, que ele, Caldas, escrevera sedento de amor: 
 
Eu fui perturbar teu sono. Despertar a carne da tua mocidade.
Desgrenhar teu cabelo, dar febre ao teu sangue.
Perdoa, pela minha mocidade.
O lençol revolvido
O travesseiro molhado...
Se houve a tua a tremer, a minha cama na noite não soube também o que era ter sono. 
 
Ainda mais essa joia de poemeto: 
 
Quero-te. Vem. As carnes palpitantes
A forma tua onde a beleza mora...
És tu. Quero-te assim. Meu corpo implora
A graça que desce dos contornos...
Trêmulas as mãos e os lábios mornos. 
 
Caldas mora em Natal entre 1908 e 1912, colabora em jornais daquela capital e envia seus escritos inspiradores para grandes almanaques e folhinhas de farmácia daquela época. 
 
Em fins de 1912, aos 24 anos de idade, regressa ao Rio de janeiro, então Capital da República, mora em quarto de pensão, colabora em jornais como O Globo, ganhando pouco, o suficiente para o seu sustento diário, emprega-se no serviço público federal (Ministério do trabalho), colabora em importantes jornais e revistas do país, frequenta com assiduidade a Biblioteca Nacional, lendo os maiores autores das letras universais e frequenta as livrarias José Olímpio e Garnier, da rua do Ouvidor, Centro da capital fluminense convivendo com Ribeiro Couto, Guilherme de Almeida, Olavo Bilac, Monteiro Lobato, José Geraldo Vieira, dentre outras figuras que engrandece as letras nacionais. 
 
Em 1917 muito antes da Semana de Arte Moderna, de 1922, começa a cantar no verso livre. O comovente poema intitulado ‘A casa nos conta a sua história’, que no entender de Newton Navarro, expressa “a terrível realidade daquela casa fechada, com restos de morte dos seus mortos mais queridos, sobras de vida pelos móveis, salas, corredores, até no pavio apagado da lamparina tisnenta”, é um exemplo que ele, João Lins Caldas, já escrevia versos brancos, emancipados de métricas. Declamo: 
 
Fechai a casa toda vós todos que estais dentro de casa.
A casa nos vai dizer o seu segredo, a casa nos vai dizer o que é ela
a nossa casa.
Aqui cresceram choros de crianças
Os nascidos choraram
Embalaram-se da rede adolescentes
Velhos saíram nos seus caixões, esticados os pés, hirtos e mudos como tijolos levados.
Escrevi dos meus versos
Pensei dos meus pensamentos amargurados.
O cabelo comprido,
A barba pontiaguda, mal alinhada,
E das mesas, sobre as toalhas velhas
Os pratos fumegantes,
A incidência da luz sobre os armários. 
Vamos, irmãos, tudo é entre sombras.
O medo
O cuidado
As mãos mortas,
O pavio do candeeiro,
Tudo é recordado. 
 
... E ao comprido que se balouça esticada,
Uma cabeça, uma cabeleira preta,
Pés que se estiram, mãos alongadas...
Vamos, irmãos, eu que estou reparando, de retrato, esse quadro que se alonga ao longo da parede.
 
No eixo Rio-São Paulo, Caldas escreveu treze livros que para Celso da Silveira “tinham títulos que já valiam poemas.” Antes, porém, quando morava em terras potiguares teria escrito quatro livros. Pena que ficaram apenas organizados em cadernos manuscritos e depois destruídos pelas traças, por guardá-los em malas e caixotes com precariedade ou por não saber onde guarda-los em razão, talvez, da sua genialidade que lhe deixava atordoado. 
 
Entre 1912 e 1927, permaneceu no Rio de Janeiro. Em 27 regressa a Bauru, interior de São Paulo já com emprego garantido na estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), ferrovia vinculada ao Ministério da Viação, onde colabora no jornal ‘Correio de Bauru’. Ali começa um processo investigativo, denunciando ao Supremo Tribunal Federal supostas irregularidades praticadas por alguns auxiliares do ministro da Viação José Américo de Almeida. O que, talvez, motivou o presidente Getúlio Vargas, a aposentá-lo aposenta-lo precocemente, aos 45 anos de idade, percebendo um salário miserável. Indignado escreveu a Vargas conforme adiante: 
 
“A inconsciência nacional manifestou. Mas Deus é consciência e eu ainda espero em Deus.” Sem obter resposta endereçou outra mensagem ao estadista Vargas (que não se sabe ao certo, se aquelas mensagens telegráficas chegaram ao conhecimento daquele presidente), dizendo assim: 
 
Se não guardou nome amigo que por Vossa Excelência tão denodadamente lutou guardará nome inimigo que por Vossa Excelência tão denodadamente lutará.” 
 
Volta em 1933 a sua cidade de Assu, terra que escolhera para viver a sua maturidade, decepcionado e desiludo por não ter conseguido publicar-se trilíngue: português, inglês e francês, cujo trabalho se tivesse publicado, certamente teria alcançado a glória, teria tido o reconhecimento e se tornaria um dos nomes mais representativos da poética universal.
 
Em 1936, o poeta que não conseguiu a sua aspiração maior: ganhar um Nobel de Literatura com a publicação da sua obra imortalizou-se, pois foi colocado como protagonista na segunda fase do romance urbano de ficção, “essencialmente carioca” intitulado Território Humano, do escritor, seu amigo íntimo, o paulistano José Geraldo Vieira, nascido nos Açores, Portugal, considerado por Érico Veríssimo como “o mestre do romance Brasileiro”, encarnado no personagem Cássio Murtinho.
 
Em 1975, Celso da Silveira organizou a antologia póstuma de João Lins Caldas intitulada Poética, editado pela Fundação José Augusto, cujo livro chegou às mãos do poeta pernambucano Mauro Mota que aquela época, 1974, ainda dirigia o Suplemento Literário do Diário de Pernambuco. Ao ler o citado livro, Mota externou (nota publicada naquele periódico) que naquela coletânea tem três ou quatro poemas que são dos mais belos da língua portuguesa, incluindo o célebre e universal poema sob o título ‘Isabel’, que Caldas escreveu logo após presenciar um cortejo fúnebre passar a sua frente, na grandeza do seu poetar:
 
Uma Isabel morreu no mundo.
Tinha pai e mãe, irmãos e sobrinhos, aquele mundo de primos no mundo.
Avós enterrados, bisavós trepidantes nos cernes duros de árvores agigantadas.
Ascendentes outros na nervura de asas e barbatanas de peixes.
Isabel hoje estava cansada.
Remontava das suas origens a dias muito anteriores aos dias de Tebas,
Viveu de fresco os poemas de Homero,
A guerra de Tróia,
O passado de Sócrates,
E, caída Cartago, soldados ruivos, assalariados, mortos.
Não soube nada d sua crônica.
Era uma mulher, vestida de saia, os cabelos compridos
E se alimentava de pão, rapadura e mel.
Isabel tinha linhas nas mãos.
Uma sorte que estava escrita, diferente sem dúvida das outras sortes.
O destino de Isabel, o destino da vida como dos outros que carregam a morte.
Eu nunca vi Isabel. 
 
Finalizo, pois nas palavras de Berilo Wanderley ao afirmar que João Lins Caldas "tem poemas que pode figurar numa antologia dos melhores poetas do mundo."

Muito obrigado.

Fernando Caldas

terça-feira, 19 de junho de 2018

UERN:

O professor Joacir Rufino de Aquino (foto), do curso de Economia do Campus Avançado Prefeito Walter de Sá Leitão, da Universidade do Estado do RN (UERN), em Assú, teve artigo publicado no portal Brasil Debate e na Carta Capital, dois dos portais de discussões mais importantes do Brasil.
Uma versão do artigo do professor da UERN já havia sido publicada na Revista de Economia e Sociologia Rural, da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (SOBER), volume nº 56, destaca informação publicada pelo site da UERN.
O texto publicado na revista tem ainda as assinaturas dos professores Márcio Gazolla (Universidade Tecnológica Federal do PR, UTFPR) e Sérgio Schneider (Universidade Federal do RS, UFRGS).
A Revista de Economia e Sociologia Rural é a mais importante do Brasil na divulgação e difusão de resultados de pesquisas nas áreas de economia, administração, extensão e sociologia rural, promovendo e estimulando o debate de temas e fatos de importância econômica e social.
O artigo trata de identificar os elementos característicos da estrutura agropecuária brasileira e demonstrar a marcante desigualdade presente na agricultura familiar do país.
Para o estudo, foi realizada uma pesquisa bibliográfica sobre o tema, bem como um levantamento de dados estatísticos oficiais relacionados ao perfil produtivo do setor e à oferta de crédito rural.
Postado por Pauta Aberta.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

REMINISCÊNCIAS:

Por João Felipe da Trindade
Dornelles Bittencourt está na minha ascendência. Por isso, quando encontrei esse registro em Assú, resolvi transcrever para o blog.
Aos 28 de julho de 1826, na Fazenda Boa Esperança, pelas onze horas da manhã, em presença do Padre Manoel Esteves do Nascimento, de minha licença, e das testemunhas abaixo nomeadas, se receberam por esposos presentes Jerônimo Emiliano de Freitas e Inácia Dornelles Bittencourt, meus fregueses, o esposo de 20 anos, filho legítimo de João de Freitas Lira e de Isabel de Barros, a esposa de 20 anos filha legítima de Paulo Gomes de Melo, falecido, e de Teresa Maria de Jesus, esta natural da Freguesia do Seridó, donde apresentou papéis desembaraçados, aquele natural, e moradores neste Assú, onde se fizeram as denunciações necessárias, sem impedimento, e logo lhes deu as bênçãos matrimoniais, sendo primeiramente confessados e examinados na Doutrina Cristã, presente por testemunhas Félix Gomes de Melo, e Félix José Dantas, casados, todos deste Assú, e para constar fiz este assento me que me assino. Joaquim José de Santa Ana, Pároco do Assú.
P. S. Ainda nos registros de Assú, mais uma Dornelles Bittencourt: em 13 de maio de 1833, Manoel Joaquim Casado, de 21 anos, natural da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Brejo de Areia, filho de Manoel Martins Casado e de Ana Dornelles Bittencourt, casou com Rosa Maria da Conceição, de 21 anos, filha de Veríssimo Vieira de Melo e de Maria Francisca, falecida, na presença de Veríssimo Vieira Junior e de Galdino Vieira de Melo, solteiros.
Postado por Hipotenusa.